(Estando completamente sem inspiração para escrever qualquer coisa racional, o autor publica hoje um texto escrito sobre Guerra ao Terror, feito para o blogsite Moonflux (onde colabora eventualmente) de autoria de um dos melhores blogueiros que o autor já conheceu – e um de seus melhores amigos, Bruno Colli. A análise foi publicada no dia seguinte à festa do Oscar, quando o filme em questão levou seis estatuetas. Segue abaixo com pequenas alterações para se ajustar ao conceito do 3P. Aos amigos que sugeriram filmes para figurarem aqui, o autor pede desculpas pela pane mental, e avisa que todas as sugestões serão aceitas ainda nesta semana. Já por estar digitando em terceira pessoa, o autor não tem culpa alguma).
Vi The Hurt Locker (Guerra ao Terror em português) quando o filme já estava na reta final de sua vitoriosa campanha nas premiações da temporada 2009/2010 – que culminou nos seis Oscars ganhos no último dia 7 de março – influenciado, é claro, pelas excelentes críticas que lia em todos os sites e blogs que acessava, em busca de indicativos para fazer a minha aposta no Bolão do Oscar, que acontece todo ano por aqui, na minha cidade. Relutei em ver, entretanto, pois uma coisa me incomodava profundamente: a comparação com Platoon, a obra máxima de Oliver Stone, e que está entre meus filmes favoritos. E também contava contra o fato de que filmes de guerra, nos últimos anos, tornaram-se absurdamente clichês, independente de qual conflito abordado (alguém se lembra de Fomos Heróis ou A Conquista da Honra?). Foram nessas circunstâncias que o assisti. E confesso a vocês, que me lêem nesse instante: tomei um enorme susto. Conhecia a fama de Kathryn Bigelow já de outros tempos, na época em que eu era um pivete vendo Caçadores de Emoção e mais tarde, um adolescente atento vendo K-19. Super competente, seu estilo duro e realista de direção lhe rendeu a alcunha de mulher-macho, por aceitar, primordialmente, projetos que nem mesmo diretores do sexo masculino pegariam. Em seu último filme ela alcançou um nível que beira a perfeição: é na câmera inquieta durante toda a projeção, com o apoio da trilha sonora pontual e a edição no melhor estilo videoclipe, juntamente com os enquadramentos milimetricamente pensados para causar desconforto, que ela causa um efeito de tensão que perdura o tempo inteiro.

Tecnicamente é um filme memorável, pelas qualidades já citadas e também pelo hiper-realismo das cenas de confronto, que de forma inteligente dribla as armadilhas próprias do gênero, já que aqui você não vai ver ninguém sendo baleado pelas costas, em câmera lenta. É a ação crua que interessa. Mas nada disso seria possível, nem mesmo a maestria da produção, se não fosse Jeremy Renner. É nele que tudo converge, é a espinha dorsal que move a trama. O Sargento William James é uma espécie de dependente. Seu vício não está nas drogas ou nas bebidas, mas sim em adrenalina, em viver cada dia como se fosse o último; sua vida depende disso, ele necessita ser desafiado a todo instante. Assim ele se torna o líder de um esquadrão antibombas em um Iraque devastado pela invasão americana que resultou na morte de Saddam Hussein, no início da década. O enorme carisma do sargento é o que nos faz esquecer que a cada novo trabalho que ele enfrenta, ele coloca a si mesmo e a seu grupo em risco. Méritos a Renner, que conduz o filme – e o espectador – para onde quer, sem que percebamos.
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Então, chega-se a conclusão de que The Hurt Locker não é apenas “mais um filme de ação”. É um estudo de comportamento. Como me disse um amigo, em uma conversa sobre o filme: “o mais encantador em tudo isso é a idéia do micro que é macro”, pois o que se vê ali pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer pessoa, pode acontecer aí do seu lado sem que você esteja sabendo. Não é algo que só acontece no Afeganistão, por exemplo. Além, claro, de expor a terrível realidade iraquiana, as cicatrizes que uma ocupação teoricamente pacificadora deixou em um país que já vivia na miséria. A mim, pessoalmente, serviu também para mostrar que Bigelow é muito mais do que uma boa cineasta e ex-esposa de James Cameron; ela conseguiu provar, com seu despretensioso trabalho, que assim como diz a frase no começo do filme, a guerra é uma droga. Em todos os sentidos.

