Arquivo de março \31\UTC 2010

Análise: Guerra ao Terror

(Estando completamente sem inspiração para escrever qualquer coisa racional, o autor publica hoje um texto escrito sobre Guerra ao Terror, feito para o blogsite Moonflux (onde colabora eventualmente) de autoria de um dos melhores blogueiros que o autor já conheceu – e um de seus melhores amigos, Bruno Colli. A análise foi publicada no dia seguinte à festa do Oscar, quando o filme em questão levou seis estatuetas. Segue abaixo com pequenas alterações para se ajustar ao conceito do 3P. Aos amigos que sugeriram filmes para figurarem aqui, o autor pede desculpas pela pane mental, e avisa que todas as sugestões serão aceitas ainda nesta semana. Já por estar digitando em terceira pessoa, o autor não tem culpa alguma).


Vi The Hurt Locker (Guerra ao Terror em português) quando o filme já estava na reta final de sua vitoriosa campanha nas premiações da temporada 2009/2010 – que culminou nos seis Oscars ganhos no último dia 7 de março – influenciado, é claro, pelas excelentes críticas que lia em todos os sites e blogs que acessava, em busca de indicativos para fazer a minha aposta no Bolão do Oscar, que acontece todo ano por aqui, na minha cidade. Relutei em ver, entretanto,  pois uma coisa me incomodava profundamente: a comparação com Platoon, a obra máxima de Oliver Stone, e que está entre meus filmes favoritos. E também contava contra o fato de que filmes de guerra, nos últimos anos, tornaram-se  absurdamente clichês, independente de  qual conflito abordado (alguém se lembra de Fomos Heróis ou A Conquista da Honra?). Foram nessas circunstâncias que o assisti. E confesso a vocês, que me lêem nesse instante: tomei um enorme susto. Conhecia a fama de Kathryn Bigelow já de outros tempos, na época em que eu era um pivete vendo Caçadores de Emoção e mais tarde, um adolescente atento vendo K-19. Super competente, seu estilo duro e realista de direção lhe rendeu a alcunha de mulher-macho, por aceitar, primordialmente, projetos que nem mesmo diretores do sexo masculino pegariam. Em seu último filme ela alcançou um nível que beira a perfeição: é na câmera inquieta durante toda a projeção, com o apoio da trilha sonora pontual e a edição no melhor estilo videoclipe, juntamente com os enquadramentos milimetricamente pensados para causar desconforto, que ela causa um efeito de tensão que perdura o tempo inteiro.

Tecnicamente é um filme memorável, pelas qualidades já citadas e também pelo hiper-realismo das cenas de confronto, que de forma inteligente dribla as armadilhas próprias do gênero, já que aqui você não vai ver ninguém sendo baleado pelas costas, em câmera lenta. É a ação crua que interessa. Mas nada disso seria possível, nem mesmo a maestria da produção, se não fosse Jeremy Renner. É nele que tudo converge, é a espinha dorsal que move a trama. O Sargento William James é uma espécie de dependente. Seu vício não está nas drogas ou nas bebidas, mas sim em adrenalina, em viver cada dia como se fosse o último; sua vida depende disso, ele necessita ser desafiado a todo instante. Assim ele se torna o líder de um esquadrão antibombas em um Iraque devastado pela invasão americana que resultou na morte de Saddam Hussein, no início da década. O enorme carisma do sargento é o que nos faz esquecer que a cada novo trabalho que ele enfrenta, ele coloca a si mesmo e a seu  grupo em risco. Méritos a Renner, que conduz o filme – e o espectador – para onde quer, sem que percebamos.

Então, chega-se a conclusão de que The Hurt Locker não é apenas “mais um filme de ação”. É um estudo de comportamento. Como me disse um amigo, em uma conversa sobre o filme: “o mais encantador em tudo isso é a idéia do micro que é macro”, pois o que se vê ali pode acontecer em qualquer lugar, com qualquer pessoa, pode acontecer aí do seu lado sem que você esteja sabendo. Não é algo que só acontece no Afeganistão, por exemplo. Além, claro, de expor a terrível realidade iraquiana, as cicatrizes que uma ocupação teoricamente pacificadora deixou em um país que já vivia na miséria.  A mim, pessoalmente, serviu também para mostrar que Bigelow é muito mais do que uma boa cineasta e ex-esposa de James Cameron; ela conseguiu provar, com seu despretensioso trabalho, que assim como diz a frase no começo do filme, a guerra é uma droga. Em todos os sentidos.

Análise: Contatos de Quarto Grau

Há umas semanas atrás, estava conversando com um amigo sobre os filmes recentes que foram lançados no Brasil. Ele me disse que havia um fantástico, bom pra caramba, que ele havia acabado de assistir, “Contatos de Quarto Grau”. Não tinha lido nada que favorecesse o longa, por isso nem tinha me interessado em procurar assistir. Mas o tal amigo (oi, Charles!) fez tanta propaganda que eu acabei conseguindo uma cópia. Mas deixei ali jogada em uma caixa, como tantos outros filmes que tenho e que ainda não vi. Então resolvi aproveitar uma visita à casa nova dos meus pais, onde eles estão morando agora, para me inteirar do que seria esse tão alardeado suspense “baseado em fatos reais”. E é uma droga, aviso desde já.

Para começar, tem a Milla Jovovich, que como atriz é um ótimo rosto estranhamente bonito. É daquelas modelos que quando passam a atuar, usam apenas três expressões diferentes para simular sentimentos: uma cara para felicidade, uma cara para tristeza, e outra para horror. E só. Seu trabalho aqui só não é totalmente medíocre por causa dos primeiros trinta minutos, depois disso descamba para a caricatura clássica de filmes de terror, que se resume a gritos e caras de espanto. Outra besteira é vender a história como caso real, acontecido na cidade de Nome, no Alaska. Se você que viu o filme acreditou, desacredite. Experimenta procurar no Google ou em qualquer outro lugar sobre isso, não vai achar. A tal doutora Abigail Taylor não existe, assim como os relatos ditos no roteiro. Não que isso seja ruim, já que o cinema é a arte de ludibriar o cerebro; e nisso foram extremamente competentes, pois as cenas “reais” são críveis, e os depoimentos da doutora idem. Talvez por isso muita gente tenha acreditado naquela patacoada toda. Se o enredo fizesse sentido e não pulasse para o farsesco a partir do momento que ela descobre o segredo dos desaparecimentos e sintomas de loucura nos cidadãos do lugar, seria um filme ótimo de verdade. Mas chega a ser ridículo, apesar de Elias Koteas e Will Patton serem atores competentes e que tentam dar dignidade àquilo tudo. Fora que o filme inteiro lembra “Atividade Paranormal“, outra bomba. É vergonhoso.

Por fim, não consigo entender o hype em cima de “Contatos…”. Existem tantos outros filmes bons sobre alienígenas – sim, tem alienigenas no filme! – como “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, uma das obras-primas de Steven Spielberg, ou mesmo “Contato”, do Robert Zemeckis, isso só pra ficar nos que tem títulos parecidos. Recomendo a você fazer qualquer outra coisa ao invés de assistir isso, como por exemplo colher flores em um bosque ou recitar poesias para crianças carentes. Qualquer coisa é melhor do que essa hora e meia de tortura e menosprezo pelo nosso cerebro. O diretor Olatunde Osunsanmi subestima nossa inteligência, apesar de ser um tanto esteta, pois as imagens aéreas e enquadramentos que usa são elegantes e visualmente bonitos. Infelizmente até nisso ele erra: existem tomadas aéreas demais e os enquadramentos não combinam com a imagem em muitos momentos. E mesmo que, em um ou dois momentos o filme assuste, no final o resultado é desinteressante, esquecível. Preciso ter uma conversa com esse meu amigo que me recomendou o filme, mas em parte a culpa é minha. Como pude acreditar que um filme que tenha Jovovich como atriz principal pode ser bom? Acho que enlouqueci.

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