Análise: Ilha do Medo

por Luiz Henrique Oliveira

Acredito que, a uma hora dessas, ninguém mais tem dúvidas quanto ao talento de Martin Scorsese. Naturalmente ele não precisaria provar nada a ninguém, mas por muitos anos vi alguns cinéfilos empedernidos torcerem o nariz para ele, pelo simples fato dele nunca ter ganho um Oscar de Direção. Diziam: “- Ele é bom diretor, mas nunca estará entre os melhores, se nunca ganhou até agora, não ganhará mais, tudo o que ele podia mostrar como diretor de cinema, ele já mostrou”. Ok, sei que soou meio pornográfico, mas não é a intenção, vocês me entenderam. O importante mesmo é sacar que esses sujeitos metidos a espertos e que tomam o prêmio da Academia como base de tudo erraram feio. No momento em que escrevo essas linhas, Scorsese já é um oscarizado por conta de “Os Infiltrados”; e o que poderia ser tido como o auge de sua carreira acaba por parecer pouca coisa quando trombamos com seu filme seguinte, “Ilha do Medo”,  no cinema. Com o perdão da palavra chula, o homem é foda.

Em sua nova parceria com Leonardo DiCaprio – já são quantas? Quatro, é isso? – o homem de sobrancelhas engraçadas superou-se mais uma vez. A sua ambientação totalmente inspirada nos filmes noir dos anos quarenta, desde o cigarro que alguns personagens fumam incontrolavelmente até a fotografia um tanto rebuscada, acinzentada, transforma o filme em um clássico instantâneo. Há tempos não faziam um terror psicológico tão bom. Scorsese parece deter todo o conhecimento cinematográfico dentro da sua cabeça italo-americana, pois ninguém sabe montar enquadramentos como ele. Ninguém sabe como dirigir atores como ele. Desde suas obras anteriores, pegando desde “Alice Não Mora Mais Aqui” até “Taxi Driver” e “Os Bons Companheiros”, ele se mostra um esteta, um artista da imagem em todos os sentidos. Não é muito diferente em seu último trabalho, já que tudo parece calculado para causar estranheza. Não dá para ver o filme sem se sentir incomodado, com aquela vontade de levantar da cadeira e sair correndo, ainda mais com imagens impactantes, que arrepiam até a alma.  Não sei se era essa a intenção dele. Se era, foi muito bem sucedido.

Eu evito falar muito sobre o enredo, a trama de “Ilha do Medo” justamente para não estragar a surpresa de quem ainda não viu. O que posso dizer assim abertamente nesse texto sem que nenhum de vocês queira arrancar a minha pele por causa de spoilers não-intencionais é que se deve prestar muita, muita atenção nos detalhes. A direção de arte e o figurino dizem muito sobre o que realmente está acontecendo. E as atuações contribuem consideravelmente, também. Por falar nisso, o que era DiCaprio antes da parceria com o diretor, hein? Demonstrava certo talento, mais nada. Fazer “Gangues de Nova York” deve ter dado um tilt em sua cabeça, pois desde então ele não errou mais: tudo o que ele faz é bom. Nunca achei que ia dizer isso, mas é verdade. Agora se pode dizer que ele é um ator de verdade, ainda mais depois do que demonstra no filme sobre o qual estou falando com vocês agora. Sério. É claro que os outros atores, gente como Ben Kingsley, Mark Ruffalo e Max Von Sydow dão conta do recado em seus papéis, são extremamente competentes, mas o filme é do cara loiro. Não percam mais tempo. Entrem de cabeça na loucura e na paranóia da ilha do medo de Scorsese/DiCaprio. Levantem daí e procurem o cinema ou as formas alternativas (download, oi). Caso estejam com preguiça agora, só quero que tomem nota: na ignóbil opinião deste que vos fala, é o melhor filme do ano, até aqui. E escrevi esse texto inteiro apenas para dizer isso, obrigado pela atenção.

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