Cine Retrô: Monty Python em A Vida de Brian

Qualquer hora eu faço uma enquete: qual foi a última comédia realmente engraçada que você assistiu? Você, meu caro leitor, minha distinta leitora, anda gargalhando no cinema? Existe algo que tenha visto no escurinho do cinema que tenha feito chorar de rir? Faço essas indagações porque cada vez que vejo uma comédia recente, mais me convenço de que os atores/roteiristas/diretores não sabem mais nos fazer rir de verdade. No meu caso, a última vez que ri com um filme de comédia, no cinema, foi quando vi no HSBC Belas Artes aquela que é a comédia cult por excelência: “Borat”. Saí de lá com dores de barriga, e desde então nunca mais. Ainda mantenho as minhas esperanças, fui ver aquele com o Robin Williams e com o John Travolta e… bem, esse é um assunto para outro dia. Voltando ao principal motivo dessa conversa, o que acontece é o seguinte: o humor está vulgar. Realmente chulo. Tudo que você vê hoje é flautulência, peito, bunda e derivados. Mas, pior que isso é a qualidade do texto. Nem sempre procurar o riso fácil, o riso frouxo é a melhor saída; e assim acabam tentando nos empurrar goela abaixo algo que é impossível engolir. Não se faz mais humor anárquico, por exemplo, humor contestador. Sacha Baron-Cohen foi um lampejo, uma estrela-cadente no céu do humorismo. É uma pena que não exista nenhum grupo como o Monty Python: se Cohen foi o cometa, eles são o centro do universo.

Em “A Vida de Brian”, há nudez, inclusive frontal, de Graham Chapman.  Mas ninguém pode dizer que seja ofensivo, porque está dentro do contexto, pois a história se passa na época em que Jesus Cristo ainda andava na Terra. E não creio que existissem roupas íntimas naqueles tempos (se eu estiver errado por favor me corrija), não é mesmo? Dito isso, não há puritanismo, nesse sentido é realismo. A reprodução que fizeram de Jerusalém é interessante, árido, amarelo-deserto. Seria um típico filme de época para contar o sofrimento de Cristo se não fossem John Cleese, Eric Idle, Terry Jones, Terry Gilliam, Michael Palin e o já citado Chapman. Inventaram a história de Brian Cohen, contemporâneo de Jesus, e que é confundido com um messias, e com isso botam abaixo dois mil anos de religião apenas usando de situações engraçadas, que na verdade, apenas trazem à luz o ridículo do fanatismo exagerado de certas organizações religiosas. Ninguém teve a coragem que eles tiveram, e poucos tiveram a audácia de seguir o caminho que eles deixaram aberto: é possível fazer graça com as instituições estabelecidas há séculos, sim senhor. E não há nada de errado nisso. Os Pythons mostram que nada é realmente sagrado, e que tudo pode servir de inspiração: se o sofrimento do filho de Maria pode servir ao drama, como em “Paixão de Cristo” de Mel Gibson, por que não pode servir a comédia também?

É claro, em 1979 chiaram bastante, a igreja católica condenou o filme, como fez quase uma década depois, com Martin Scorsese e seu “A Última Tentação de Cristo”. O que prova (ao menos para mim) que o papa não tem nenhum senso de humor. Até porque Cristo é citado pouquissimas vezes. Pura censura. Isso, claro, só serviu para aumentar o interesse no filme, que é excelente e é dos poucos casos em que fica mais atual a cada ano que passa. Pois é só ligar a TV e perceber os pastores, padres e afins apelando para interpretações ao pé da letra das sagradas escrituras, tentando vender a ideia de que somos pecadores em “negar” o salvador. O filme dirigido por Terry Jones, que é do grupo mesmo, e escrito por todos eles tem a qualidade de fazer rir e ao mesmo tempo pensar. Será que vale mesmo a pena seguir cegamente uma religião? Ou alguém? Como diz Brian, “vocês deveriam pensar por si mesmos!” – e a multidão que o idolatra apenas repete suas palavras, sem pensar nelas. Sou só eu quem pensa assim ou isso acontece até hoje, hein?

4 Respostas para “Cine Retrô: Monty Python em A Vida de Brian”


  1. 1 Caco 08/04/2010 às 00:25

    Concordo plenamente com teu argumento.

    Ainda não assisti a esse filme do grupo Monty Python. Mas considero o badalado “O Sentido da vida” a melhor comédia que já assisti. Desde então, nunca mais pude sentir prazer semelhante assistindo a uma comédia.

    Vou conferí-lo o mais rápido possível!

    Um abraço!

  2. 2 Rodrigo Prado 14/04/2010 às 03:58

    Tens toda a razão quando indaga sobre as comédias que andam saindo. Em comparação à grandes como o Monty Python, elas não são nada. As que pouco me agradam, são as comédias do Todd Phillips (Virgem de 40 anos, Se Beber Não Case). O meu longa preferido do Monty Python continua sendo o Em Busca do Cálice Sagrado, mas A Vida de Brian arrebenta. =)

  3. 3 valeria 05/12/2010 às 21:50

    uma pequena e importante correçcao o diretor é terry gilliam


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