Análise: Alice

[Momentos após a sessão] … e agora fico sem ter o que escrever, olhando para a página aberta do word com a maior cara de pateta. Quando os créditos subiram, depois de absorvido o choque, fiquei imaginando: “o que diabos eu posso escrever sobre isso? Como é que eu vou explicar o que eu acabei de ver?”. É complicado, ainda mais quando não se é alguém de vocábulo diversificado como eu. Escrevo o que penso, o que já me trouxe alguns probleminhas, como naquele texto sobre “Contatos de Quarto Grau”, em que só faltou pedirem a minha cabeça numa bandeja de prata. Mas é preciso ser honesto, não é? Então, honestamente eu digo que “Alice” é a melhor coisa que eu vi no cinema este ano. Não, nos últimos dois anos. Minto, nos últimos cinco anos. Sei lá. Talvez seja a melhor coisa que eu tenha visto em cinema. É impressionante, realmente impressionante. E assim como toda obra cinematográfica recente, tem lá os seus erros, mas até seus erros são encantadores. E sinceramente, nem dá para se importar com eles. Quem é que liga, estando de cara com Tim Burton realizando o sonho de milhares de fãs fazendo a sua versão para o livrinho do Lewis Carroll?

[Durante a noite] Apesar de um começo aristocrático – em todos os sentidos – , logo entramos no mundo e na mente de Alice, logo, na insanidade saudável do diretor. Tudo em Wonderland é a cara do chefe: as árvores retorcidas, personagens esquisitos, visual estonteante, histórias quase sobrenaturais. O livro foi feito para ele, é fato. Ok que a história foi mudada, adaptada. Mas a essência é a mesma, e é isso que importa, e todos aqueles habitantes do País das Maravilhas que conhecemos bem estão lá, retratados à quase histeria. É realmente uma pena que o filme pareça oco, vazio de história, e que tudo o que se vê seja apenas uma justificativa para usar a tecnologia de fundo verde e de 3D (eu vi no 2D, mas logo vou experimentar em terceira dimensão em algum cinema de São Paulo). Como eu disse, as personagens estão lá, mas não são os mesmos do livro. Tivessem adaptado tal qual na história clássica, aí sim ficaria irretocável, porque o talento dos envolvidos (Burton, Johnny Depp, Helena Bonham-Carter, Crispin Glover, entre outros). Mas não dá para reclamar, quem está dentro da sala se esquece rapidinho desses detalhes, tamanho é o efeito que as imagens supercoloridas e surrealistas que correm pelo par de horas deixa na gente.

[No dia seguinte...] Também lamento não conseguir falar muito sobre o filme. O primeiro parágrafo deste texto eu escrevi assim que eu saí do cinema, quando cheguei em casa; agora bato essas linhas na manhã do dia seguinte, o que já me fez digerir melhor tudo o que assisti. O que me faz lembrar, agora, em destacar duas coisas a mais: a trilha – é do Danny Elfman, né? É o estilo dele, sempre excelente – e as personagens feitas em CGI, como o Gato de Chesire, por exemplo. Todos, absolutamente todos são carismáticos, encantadores, como não poderia deixar de ser. São mais encantadores até do que os atores (e assim mesmo Depp consegue, mais uma vez, chamar atenção para uma caracterização bizarra e um perfeito timing de comédia). Com tudo isso, o aguardado “Alice” é como um banquete pela metade: é maravilhoso de se ver, você até enche a barriga e sente-se satisfeito, mas depois dá a impressão de que a comida estava sem sal.  Não sei se sou eu que sou chato, mas lendo coisas a respeito na internet vi que não sou só eu quem pensa assim. Uma pena, realmente. Com tantas possibilidades de colocar seu filme entre os melhores feitos no gênero, Tim Burton faz um filme apenas bom, que até merece quatro estrelas numa análise (muito) mais otimista, mas que não se torna a obra marcante que todos esperavam. Mantenho ainda a opinião de que, como experiência visual, é a melhor coisa que eu já vi, impressionante mesmo. Mas no geral é mesmo um pouco decepcionante. De toda forma, é melhor que “Avatar”. O que já é muito bom.

9 Respostas para “Análise: Alice”


  1. 1 Nekas 21/04/2010 às 15:24

    Na minha opinião, não é assim tão bom, mas fico contente que disfrutaste imenso deste filme…

    A banda sonora varia entre Danny Elfman e uma OST…

    Abraço
    Cinema as my World

  2. 2 Cristiano Contreiras 21/04/2010 às 17:20

    Não vi, ainda…curiosamente, a sua é a única opinião positiva sobre este filme que vi, até agora.

    abraço

  3. 3 Cassio 21/04/2010 às 18:59

    “Alice” para mim, tal qual “Avatar”, representa técnica em detrimento da história. E isso é muito triste…
    A tecnologia 3D parece não esconder seus objetivos: arrecadar muito dinheiro (do grande público) e produzir pouca arte (para o grande público).
    Recorda-me o episódio histórico de quando a burguesia dominou a produtividade intelectual e passou a financiar arte de mau gosto.
    Enfim, “Alice” para mim foi também uma experiência de muito mau gosto! Faltou a poesia, a filosofia e a música dos livros! Inclusive um roteiro à altura de seus congêneres… Tudo para culminar em um “frabjous day”?! Pelo amor de deus, e ainda de quebra, discurso moralista! Tudo é de muito mau gosto nessa película!

    • 4 Luiz Henrique Oliveira 21/04/2010 às 19:28

      Você tocou em um assunto importante, Cássio. É bem verdade que o 3D é feito apenas para arrecadar mais, até por causa do buzz que foi “Avatar”. O cinema anda em crise, com os downloads tomando conta do espaço das salas escuras do cinema, e por isso o 3D é bom. Mas você tem toda razão quando diz que agora os filmes são mais técnica do que conteúdo. É o caso de Alice: mesmo que todas as imagens tenham a marca de Tim Burton, diretor competente e criativissimo, o roteiro é um terror. Sério. Achei o filme bom, e como disse no texto, numa análise muito positivista mereceria quatro estrelas. Poderia ter sido melhor, muito melhor. Mas visualmente é excelente.

  4. 5 Jenson 21/04/2010 às 23:23

    Luiz, claro que avisei! Deixei um conetário aqui avisando que tinha trocado o endereço!

    De toda forma, é melhor que “Avatar”. O que já é muito bom.

    AVATAR é bem ruim mesmo!

  5. 6 Alex Gonçalves 22/04/2010 às 17:18

    Luiz, vou te perdoar pela heresia de não ter gostado de “The Fourth Kind”, está bem? XD

    E eu achei meio que contraditório o primeiro e terceiro parágrafo de sua análise, pois você disse que o filme foi a melhor coisa que deve ter visto nos cinemas nos últimos anos para dizer depois que o resultado é meio broxante. Mas talvez eu tenha entendido errado, você deve ter mencionado enquanto ao visual.

    Enfim, marquei com dois amigos de assistirmos nesta semana de estreia. Vamos ver se vai rolar. Abraços!

    • 7 Luiz Henrique Oliveira 22/04/2010 às 23:09

      Carissimo Alex: obrigado por me perdoar por não ter gostado do filme, pelo menos você me entende! HAHAHAHA.

      Mas então. O texto é contraditório porque eu o fiz em três momentos distintos: o primeiro parágrafo eu escrevi logo após a sessão; o segundo escrevi durante a noite e o terceiro escrevi no dia seguinte. Apenas para mostrar que às vezes o entusiasmo do momento não permite pensar direito sobre um filme, e que é preciso dar um tempo para absorvê-lo. ^^

      E ah, não vomitei por causa de “Anaconda”, não; foi uma coincidência, e todo mundo desde então pensa que foi por causa do filme, mas era dor de barriga mesmo. HAHAHAH. Abraço!

  6. 8 Alex Gonçalves 23/04/2010 às 13:26

    Luiz, notei que você desenvolveu os três parágrafos de sua análise em situações diferentes, mas achei estranho você ter mudado de conceito enquanto ao filme tão depressa. Mas acredito que qualquer um está sujeito a esta mudança de opinião. Eu mesmo terminei vendo “Nine” achando-o fraco para, no dia seguinte, considerá-lo uma bomba. É a vida…

    Abraço e nada de vômitos! ;-)

  7. 9 danielguichard 28/04/2010 às 12:17

    Melhor que os três parágrafos em si, só a observância do entusiasmo decaindo, como uma substância em meia-vida, ao passar do tempo. Admiro o contraste entre os teus parágrafos, meu caro amigo. Tenho, pois, a impressão de que a cultura, digamos, pop, tem isso como grande marca: a efusividade, o frenético, o sensacional que dura pouco. Tipo a cocaína. Ou como a notícia de que lá vem mais um álbum da Britney.
    É engraçado, porque ontem assisti ao dvd do espetáculo Quidam, do Cirque du Soleil, com minha família. Tal circo estará na minha cidade em breve, mas visto o preço do ingresso, não vamos assisti-los ao vivo. Então lá fui eu atrás do dvd. Consegui. Meus pais ficaram empolgadíssimos com a idéia, em êxtase, com direito à sessão na sala de casa, com a família reunida e o chá nas canecas. Resultado: não assistiram até o final do espetáculo, desiludidos.
    Empolga mais a idéia vendida do que o objeto em si.

    Hoje assistirei à Alice em 3D. Estou à procura de um entretenimento divertido e despretensioso. Desliguei minhas expectativas mais altas, porque sei que o tombo é certo. Ao menos tento preparar minha mente assim, para desfrutar o máximo do filme.

    Abração, Itapetininga!


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