Arquivo de abril \30\UTC 2011

Análise: O Ritual

Os filmes de terror sobrenatural nunca mais foram os mesmos depois de 1973, quando William Friedkin lançou uma obra-prima do gênero, “O Exorcista”. Pela primeira vez, o horror de uma possessão demoníaca era mostrado com crueza nas telas do cinema, fazendo com que dezenas de pessoas passassem mal durante a exibição em várias partes do mundo. E é claro, como hoje sabemos, o filme é um clássico que, sempre que revisitado, nunca perde sua força. Seus maiores trunfos são o roteiro muito bem construído e merecidamente vencedor do Oscar, e as atuações irrepreensíveis, que fizeram com que a gente reconhecesse aquelas pessoas, ao invés de pensarmos neles como meros personagens. Infelizmente, depois disso, o gênero banalizou-se, criando filmes horríveis sobre tema tentando apenas “dar um susto na plateia” sem perceber que um filme de suspense/terror é muito mais que isso. O tempo passou e quando “O Ritual” estreou no começo deste ano, grande parte das pessoas achavam que ia ser mais uma bomba de luxo, por conta da presença do genial Anthony Hopkins interpretando um padre especializado em exorcismos. Pois olha, de bomba este filme não tem nada.

Tudo bem que a trama é batida: é a velha história do padre-sem-fé-que-não-acredita-em-exorcismo, com o velho sacristão mostrando que o Diabo existe sim, e se ele existe, Deus também está por aí. Neste caso, o padre descrente é interpretado por um cara chamado Colin O’Donoughue, um novato ainda sem carisma e que obviamente desaparece quando Hopkins entra em cena. Há tempos que o veterano ator não entrega uma atuação tão expressiva, principalmente nos últimos quarenta minutos de filme. Assistindo ao filme, aparenta que ele está se divertindo nas horas em que seu personagem, o padre excêntrico radicado em Roma, mas nos momentos mais densos ele exala autoridade e respeito. E entre os atores está Alice Braga, a filha da Sônia, que não compromete nas poucas cenas que aparece. Pelo menos, não está tendo uma carreira tipo Rodrigo Santoro, que entra mudo e sai calado na maioria das produções estrangeiras que aparece. Alice tem diálogos e tem relativa importância para a trama, e surge natural, sem maneirismos.

Contando com as presenças de Toby Jones e Rutger Hauer, dois atores que eu pessoalmente admiro, em participações pequenas mas bastante reveladoras, o filme só não é melhor pelo fato da história usar chavões e clichês típicos do gênero. Mas já é um grande avanço a produção não tentar fazer o espectador de idiota e dar sustos fáceis que nada tem a ver com o andamento da história. Perto de um “Pânico 4”, este filme massacra, soando mais inteligente e mais assustador. O diretor Mikael Hafström controla o filme com mão firme, não usando aqueles truques bestas de filmes de suspense feitos para adolescentes para assustar a qualquer custo. “O Ritual” se mostra muito mais competente em, na maior parte do tempo, apenas sugerir do que escancarar. O que é, na realidade, muito mais interessante. O filme não é perfeito, tem um começo um tanto arrastado, as situações acontecem de forma mais lenta no início. Mas quando engata, dá um show em qualquer produção do tipo filmada recentemente. Talvez os outros produtores precisem dar uma olhada neste filme, para reaprender como se faz para dar medo de verdade.


Trailer de “O Ritual” – Legendado

Jukebox: Sinatra/Jobim: The Complete Reprise Recordings

Nos idos de 1967, eu nem sonhava em nascer. Nessa época meus pais ainda estavam namorando, nem casados eles eram, minha família ainda não tinha sido formada. Entretanto, foi nesse ano que um grande encontro aconteceu, e que afetou não só a geração de meus pais, como as que vieram depois, inclusive a minha – mesmo que aqueles que nasceram nos anos oitenta, como eu, tenham sido mais influenciados pelo rock (nacional ou internacional) e não tenham dado a importância devida a uma dupla de gigantes que se formou naquele distante ano. Naquele tempo, havia um cantor que era unanimidade, tanto que era chamado de “A Voz”. Com maiúsculas. Seu nome era Francis Albert Sinatra, e ele estava voltando ao auge da carreira depois de tempos difíceis, e em plena turbulência em seu casamento com a atriz Mia Farrow. Enquanto isso, no Brasil, um homem estava tranqüilo em relação ao seu trabalho. Cinco anos antes ele havia sido reconhecido como um dos melhores compositores da época, e suas músicas eram sempre sucesso, sendo exportadas para o mundo. Tinha feito uma parceria de sucesso com um famoso poeta brasileiro, que se reinventou escrevendo letras para as maravilhosas melodias que ele compunha. Seu nome era Antônio Carlos Jobim, e ele era internacionalmente famoso. Foi então que esses homens se juntaram numa parceria que inicialmente rendeu um LP aclamado mundialmente e indicado ao Grammy de Disco do Ano. Mas houve mais. Bem mais.

Só que esse “a mais” espalhou-se por outros discos. Sinatra convidou Jobim para outra parceria em 1969, mas não rendeu um Volume II de “Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim”. As músicas gravadas naquele ano foram para outro LP, e ficaram meio esquecidas, ofuscadas pelas preciosidades contidas no álbum de 1967. Porém, no ano passado lançaram “The Complete Reprise Recordings”, a compilação de todas as canções gravadas pela dupla nas duas vezes em que se encontraram. São vinte faixas que soam como se tivessem sido gravadas ontem, tamanha é a excelência da remasterização. Isso contando apenas a parte técnica, porque a música contida no CD é de altíssima qualidade. As melodias de Tom se encaixaram na voz profunda de Sinatra com precisão. Apesar disso, por conta dos diferentes momentos da vida de ambos, as primeiras músicas são as que têm melhor interpretação, enquanto as restantes se destacam mais pela orquestração, mais pomposa e vibrante do que a calmaria das cordas e do violão da primeira fase. Nada que atrapalhe a audição: ouvir da primeira a última faixa é como dar um passeio num dia alegre e ensolarado na praia (como em The Girl From Ipanema, One Note Samba e a colorida Drinking Water) com eventuais nuvens de melancolia (como em Dindi, Meditation e a fantástica How Insensitive).

Infelizmente, Frank e Tom só se encontraram mais uma vez depois disso, quando o primeiro gravou “Duets II” – outra obra que futuramente quero comentar – e já próximos do fim de suas vidas: Jobim se foi primeiro, em dezembro de 1994, enquanto Sinatra partiu em maio de 1998. Deixaram marcas duradouras na música popular, cada qual ao seu jeito. E a união de suas vozes foi finalmente imortalizada nesse álbum definitivo, e cada vez que eu o ouço é como se eu ganhasse mais um dia de vida, tamanha é a sensação de conforto, de alegria que as músicas passam. Sou novato na obra de Frank Sinatra, e nem tão novato assim na de Tom Jobim. Ao descobrir as canções que gravaram juntos, senti que eles deixaram impresso suas marcas no tempo e na história, e que nada no mundo de hoje, neste século que vivemos, é capaz de reproduzir com tamanho entusiasmo e genialidade este encontro único, e que provavelmente não ficará só na minha memória, mas na de todos que apreciam uma boa música e que sabem que, com ela, podem chegar ao céu.

Sinatra/Jobim: The Complete Reprise Recordings
Frank Sinatra e Tom Jobim

1967-1969/2010
Universal Music
Jazz/Bossa Nova


Garota de Ipanema (The Girl from Ipanema)
Frank Sinatra & Tom Jobim (com legendas)

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