Acredito que todo mundo já pensou em seu próprio enterro. É normal. Há muitas razões para isso, entre elas, a curiosidade em saber como seria o funeral, quem seriam as pessoas que estariam presentes nele, o que elas diriam, as histórias que contariam. É absolutamente normal pensar nisso. Entretanto, é quase impossível que alguém queira realizar seu serviço funerário ainda em vida – talvez as surpresas não sejam tão agradáveis assim. Felix Bush (Robert Duvall) quis saber e pagou para ver; e esta é a história de Get Low… ou não. O filme dirigido por Aaron Schneider, a princípio, mostra-se como um tipo estranho de comédia, onde o ermitão Felix, tido como maluco pela comunidade, depois de quarenta anos de reclusão resolve “sair da toca” e organizar seu próprio funeral, onde ele – vivo – poderia ouvir todas as histórias que contam sobre ele. É verdade que sua aparência o fez ser o terror das crianças por algumas gerações, mas praticamente ninguém sabe nada sobre ele, sobre sua vida antes de chegar até ali, o que fazia da vida e o que o fez se isolar do mundo por mais de quatro décadas.
E Schneider é extremamente competente na direção e na edição, da qual também é responsável, em revelar as várias camadas que cobrem a verdadeira intenção deste homem velho e enigmático. Ajudado por uma equipe técnica excelente (em especial a fotografia e a direção de cenários), que fazem uma construção de época impecável, o diretor realiza um filme que, ao mesmo tempo em que soa divertido, deixa durante a projeção uma sensação de estranhamento, que cresce à medida que a historia avança. E como não poderia deixar de ser, Duvall mais uma vez mostra que ainda pode entregar uma atuação digna de premiações. Sendo deixado de lado no Oscar deste ano (teve a vaga “roubada” por Javier Barden), recebeu indicações em praticamente todos os outros prêmios da temporada por sua excepcional interpretação na pele de Felix Bush, homem cheio de mistérios, ranzinza e impaciente mas que, de alguma forma – e muito se deve ao carisma do ator que o interpreta – cativa o espectador, fazendo que se acompanhe com interesse a sua jornada. Claro, um filme que tem como coadjuvantes ninguém menos que Bill Murray, Sissy Spacey , Lucas Black e Bill Cobbs já não poderia ser ignorado, ainda mais com todos em momentos inspirados. Porém quem é o veterano ator que, já octogenário, ainda consegue levar um filme inteiro nas costas. É realmente lamentável que ele venha sendo tão mal aproveitado, apenas em pequenas pontas em filmes maiores.
No fim das contas, Get Low se mostra um belíssimo filme de atuação, onde a história é apenas o mote para que os atores preencham a tela e nos encantem com suas interpretações. Não que o roteiro seja ruim: as cenas finais tem uma carga emocional impressionante, não deixando nenhuma aresta a ser aparada. Filme bem acabado, bem realizado e, principalmente, original. Coisa que vem se tornando cada vez mais difícil de encontrar, depois da inundação de adaptações de livros infanto-juvenis, de quadrinhos ou remakes as quais temos de nos acomodar atualmente. É, e sempre será um prazer assistir a filmes que nos provoquem, que nos façam pensar sobre nós mesmos e o que fazemos de nossa vida, para que não nos tornemos infelizes e amargurados com o nosso próprio destino, como Felix Bush acabou por se tornar.


Dignidade o retorno do 3P com um filme que soa realmente interessante. É sempre reconfortante deparar-se com um filme que traz certa autenticidade em si.
Devo assistir a Get Low. Não agora. Agora tenho de ir comprar presunto e leite.