Os filmes de terror sobrenatural nunca mais foram os mesmos depois de 1973, quando William Friedkin lançou uma obra-prima do gênero, “O Exorcista”. Pela primeira vez, o horror de uma possessão demoníaca era mostrado com crueza nas telas do cinema, fazendo com que dezenas de pessoas passassem mal durante a exibição em várias partes do mundo. E é claro, como hoje sabemos, o filme é um clássico que, sempre que revisitado, nunca perde sua força. Seus maiores trunfos são o roteiro muito bem construído e merecidamente vencedor do Oscar, e as atuações irrepreensíveis, que fizeram com que a gente reconhecesse aquelas pessoas, ao invés de pensarmos neles como meros personagens. Infelizmente, depois disso, o gênero banalizou-se, criando filmes horríveis sobre tema tentando apenas “dar um susto na plateia” sem perceber que um filme de suspense/terror é muito mais que isso. O tempo passou e quando “O Ritual” estreou no começo deste ano, grande parte das pessoas achavam que ia ser mais uma bomba de luxo, por conta da presença do genial Anthony Hopkins interpretando um padre especializado em exorcismos. Pois olha, de bomba este filme não tem nada.
Tudo bem que a trama é batida: é a velha história do padre-sem-fé-que-não-acredita-em-exorcismo, com o velho sacristão mostrando que o Diabo existe sim, e se ele existe, Deus também está por aí. Neste caso, o padre descrente é interpretado por um cara chamado Colin O’Donoughue, um novato ainda sem carisma e que obviamente desaparece quando Hopkins entra em cena. Há tempos que o veterano ator não entrega uma atuação tão expressiva, principalmente nos últimos quarenta minutos de filme. Assistindo ao filme, aparenta que ele está se divertindo nas horas em que seu personagem, o padre excêntrico radicado em Roma, mas nos momentos mais densos ele exala autoridade e respeito. E entre os atores está Alice Braga, a filha da Sônia, que não compromete nas poucas cenas que aparece. Pelo menos, não está tendo uma carreira tipo Rodrigo Santoro, que entra mudo e sai calado na maioria das produções estrangeiras que aparece. Alice tem diálogos e tem relativa importância para a trama, e surge natural, sem maneirismos.
Contando com as presenças de Toby Jones e Rutger Hauer, dois atores que eu pessoalmente admiro, em participações pequenas mas bastante reveladoras, o filme só não é melhor pelo fato da história usar chavões e clichês típicos do gênero. Mas já é um grande avanço a produção não tentar fazer o espectador de idiota e dar sustos fáceis que nada tem a ver com o andamento da história. Perto de um “Pânico 4”, este filme massacra, soando mais inteligente e mais assustador. O diretor Mikael Hafström controla o filme com mão firme, não usando aqueles truques bestas de filmes de suspense feitos para adolescentes para assustar a qualquer custo. “O Ritual” se mostra muito mais competente em, na maior parte do tempo, apenas sugerir do que escancarar. O que é, na realidade, muito mais interessante. O filme não é perfeito, tem um começo um tanto arrastado, as situações acontecem de forma mais lenta no início. Mas quando engata, dá um show em qualquer produção do tipo filmada recentemente. Talvez os outros produtores precisem dar uma olhada neste filme, para reaprender como se faz para dar medo de verdade.
Trailer de “O Ritual” – Legendado


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